[Resenha] O Caçador de Andróides

01 - O Caçador de AndroidesEste é um livro que há muito queria ler, escrito entre 1966 e 1968 pelo renomado autor Philip K. Dick, a obra de ficção científica que serviu de base para “Blade Runner – O Caçador de Andróides” (1982), filme mais emblemático do subgênero cyberpunk.

Sinopse (Editora Rocco)
O ano é 2021. Em vez da luz do sol, uma sombria, mortífera e permanente poeira radioativa cobre o céu, em conseqüência de uma terrível guerra mundial que quase destruiu a Terra. Para escapar da contaminação e da morte, a raça humana parte para a colonização de outros planetas, onde divide a existência com robôs humanóides cada vez mais sofisticados, os andróides. Idealizados para servir aos seres humanos em sua tarefa de colonização do universo, alguns replicantes, porém, se rebelam contra seus criadores e escapam de seu domínio. Eles estariam incógnitos se não fosse a obstinação de um grupo muito especial de justiceiros a serviço da polícia: os caçadores de andróides.

No prefácio, existem algumas informações interessantes. Você, provavelmente, já deve ter ouvido falar que Blade Runner teve grande influência dos filmes “noir”, tanto o livro, quanto o filme tiveram influências dos respectivos livro e filme “O Falcão Maltês”, história detetivesca publicada em 1938 e com uma famosa adaptação para o cinema em 1941.  Quando foi publicado em 1968, a história de “O Caçador de Andróides” se passava em 1992. No filme de Ridley Scott, o ano é 2019. Já em algumas edições mais recentes do livro (como essa da Rocco, conforme sinopse acima), alteraram a data para 2021. Provavelmente uma decisão dos editores, afim de evitar que a visão de futuro próximo do livro se perca.

“Emigre ou degenere! A Opção é Sua”
Depois da Guerra Mundial Terminus, a Terra e seus habitantes sofrem com os malefícios causados pela poeira radioativa. Os seres humanos são encorajados a deixar o planeta e partir para Marte, para colonizá-lo. Porém, apenas pessoas saudáveis são aceitas: são realizados exames mensais para definir quem está apto, os reprovados estão “condenados” a passar o resto de seus dias no, antes chamado,  planeta azul.

“… Seja como criado particular, seja como incansável trabalhador braçal no campo, o robô humanoide fabricado sob medida – projetado especialmente PARA SUAS PRÓPRIAS NECESSIDADES, PARA VOCÊ E SOMENTE PARA VOCÊ – é-lhe entregue à sua chegada, inteiramente gratuito, totalmente equipado, da forma especificada por você antes de sua partida da Terra…”

Os androides, também chamados de “andros”, foram criados para servir aos humanos na colonização de Marte. Mas com o avanço da tecnologia de sua fabricação, era cada vez mais difícil distinguir os androides dos humanos. Quando estes saem do controle, fica a cargo dos caçadores de cabeça a prêmio, identificá-los e aposentá-los (é este o termo usado no livro para se referir ao extermínio de um androide).

Rick Deckard, é um destes caçadores de androides, vive com sua mulher, Iran,  em um edifício. Durante os diálogos, somos apresentados a alguns aparatos tecnológicos, como o videofone e o curioso orgão condicionador Penfield, um aparelho que induz seu usuário a determinadas emoções e sensações, tais como: depressão, sono, alegria, entusiasmo… tudo através da discagem de um número, por exemplo: Disque 888 para ter vontade de assistir TV, qualquer que seja o programa.

Empatia
s. f. Psicol. Tendência para sentir o que sentiria outra pessoa caso se estivesse na situação experimentada por ela.

01 - Caixa de Empatia

Com certeza, o aparelho mais estranho mostrado no livro é a Caixa de Empatia, proveniente de uma religião denominada Mercerismo. Seu usuário a liga, segura nos “punhos” da tal caixa e compartilha diversas sensações com outros usuários que, porventura, estejam usando a caixa de empatia no mesmo momento. Wilbur Mercer está para o Mercerismo como Jesus Cristo para o Cristianismo. No momento que as pessoas fazem a “fusão” com Mercer, o visualizam subindo uma colina e depois sendo apedrejado, geralmente os usuários da caixa de empatia sentem uma destas pedradas.

Você vai perceber que a questão da empatia é algo recorrente durante o livro, nesta resenha também.

Grande parte da fauna e flora foi extinta devido a poeira radiotiva e, talvez por essa escassez ou pela “necessidade de empatia”, as pessoas são muito apegadas a animais de estimação. Não apenas os comuns cães e gatos, na verdade, os mais cobiçados são os de maior porte, como: ovelhas, bodes, cavalos, avestruzes, etc. E quanto maiores, mais caros. Todos tem sempre a mão a edição mensal do Catálogo Sidney de Animais & Aves, que é uma referência no que diz respeito a valores de compra e venda. E, justamente, por ser raro (e caro) encontrar um animal autêntico, se criou também um mercado de sucedâneos (animais artificiais).

Isso não fica muito claro no livro, mas pelo que entendi, após a Guerra Mundial Terminus, as pessoas não tiveram mais filhos na Terra. Não sei se  haviam abortos espontâneos devido a radiação ou algo assim. O fato é que, além da insinuação de colonização em Marte, não existe menção alguma a crianças no livro. O que nos faz imaginar uma sociedade pós-guerra formada, em sua maioria, por pessoas de meia idade. Esta seria uma outra especulação afim de explicar porque as pessoas se apegam tanto aos animais, sejam eles artificiais ou não, aliás hoje em dia mesmo é muito comum vermos casais que criam animais de estimação como se fossem filhos.

E como a maioria dos habitantes teve pouco ou nenhum contato com animais de verdade, muitos não conseguem diferenciar um animal autêntico de um artificial. Sendo assim, muitas pessoas vivem de aparências, pois os vizinhos não sabem que seus animais são sucedâneos. Inclusive, há uma passagem onde Deckard explica uma ocasião em que sua ovelha elétrica apresentou defeito e o caminhão de reparos vinha marcado como “Hospital Veterinário…”, além disso o motorista sempre estava trajado como um veterinário.

No passado, Deckard teve uma ovelha autêntica, que morreu de tétano. Rapidamente a trocou por uma ovelha elétrica “idêntica”, mas almeja comprar novamente uma nova ovelha autêntica ou até mesmo outro animal. Tudo isso devido a perspectiva de ganhos que tem em sua nova missão: aposentar 6 androides do modelo Nexus-6: os mais avançados que existem, fabricados pela Rosen Association. 8 deles se rebelaram e fugiram de uma colônia em Marte para Terra. Dave Holden, um dos melhores caçadores de androides em atividade, aposentou 2 deles, mas falhou com o terceiro e foi hospitalizado, deixando o caminho livre para Deckard, que receberia mil dólares para cada “andro” que aposentasse.


Teste de Empatia Voigt-KampffSe os androides Nexus-6 são tão parecidos com os humanos, como identificá-los? A resposta está no Teste de Empatia Voigt-Kampff. Todo caçador de androides carrega em sua maleta a aparelhagem para executar este teste. Ele consiste em uma série de perguntas sobre situações hipotéticas, a medida em que as respostas são dadas, são avaliados dados como: tempo de resposta, pulsação e dilatação da pupila. De acordo com o livro, androides não possuem empatia. Em dado momento, são apresentadas situações que envolvem peles de seres humanos como itens decorativos, algo que geraria repulsa em um ser humano normal, mas não em um androide. A única falha neste teste estaria na possibilidade dele ser aplicado em um ser humano com problemas mentais, como um esquizofrênico. Porém, esta possibilidade é atenuada com o consenso de que uma pessoa nesta situação deveria estar em uma instituição ou clínica apropriada.

Tenho que ser sincero: o livro não possui uma descrição muito detalhada acerca de veículos, construções e bugigangas. E mesmo que tivesse, seria difícil desassociar do visual apresentado no filme Blade Runner (para quem, como eu, assistiu o filme antes de ler o livro). Mas isto não é um ponto negativo, muito pelo contrário: é como ver alguma construção feita com Lego e pegar as mesmas peças usadas nela para montar algo diferente, foi algo mais ou menos assim que fiz mentalmente para criar toda ambientação. Vale lembrar que o livro apresenta muitos locais e personagens que não existem no filme. Com uma taxa de natalidade baixa (ou nula) somada a emigração para Marte, em certas regiões era possível encontrar prédios gigantescos abandonados. Em um deles, reside John Isidore que, além de não ter passado nos exames médicos para emigração, devido a seus genes deformados, não passou nem mesmo no teste de faculdades mentais mínimas. Pessoas assim, eram estigmatizadas na sociedade e chamadas de “debilóides”. Ainda assim, possuía uma profissão: motorista de uma caminhonete de uma empresa de reparo de animais artificiais.

John Isidore era, provavelmente, o único morador do prédio. Porém, certo dia, percebe que tem alguém novo na vizinhança: se trata de Pris Stratton, um dos androides fugitivos. Pois depois da chegada na Terra, eles acabaram se separando e tentando infiltrar-se na sociedade sem despertar suspeitas. Luba Luft, outra androide fugitiva, atua como uma cantora de ópera, por exemplo. John Isidore se anima com a nova companhia no prédio e começa a conviver com Pris, em dado momento ela encontra uma aranha e fica intrigada: porque o bicho precisa de tantas patas para se locomover? Trata de pegar uma tesoura para “provar” que 4 patas são o suficiente, eis mais uma passagem que mostra a falta de empatia dos androides.

O Caçador de Andróides - Hovercar
Rick Deckard continua sua busca e suas investigações, sempre consultando seu catálogo Sidney e tentando decidir qual animal comprará, a medida que vai aposentando os androides. Mas, antes disso, visita a Rosen Association. Com o objetivo de aplicar o Teste de Empatia Voigt-Kampff em um grupo de androides e um de controle (humanos), afim de provar a eficiência do teste para detecção dos modelos Nexus-6. Tanto em sua chegada a sede da Rosen ou em sua residência, temos algo curioso: Rick Deckard chega a esses locais sempre através dos telhados e depois pega um elevador para descer (o contrário do que fazemos hoje em dia, a não ser que você seja um milionário e use um helicóptero!). Tudo isso graças aos hovercars (carros voadores).

Uma coisa que vale destacar: durante sua empreitada, Rick Deckard recebe ajuda de outros personagens mais de uma vez e tem sua vida salva por um deles. Pois ele nunca pegou uma missão tão difícil como esta antes. Dave Holden, que era mais experiente, sempre decidia quais das missões de sua agenda passaria a Deckard e quais não. Desta vez, Deckard ficou encarregado de aposentar 6 androides Nexus-6, tarefa que Holden deixou para si e, mesmo com toda sua “expertise”, não foi capaz de cumprir.

O Caçador de Andróides - 07O livro me surpreendeu positivamente, até mesmo pela época em que foi escrito. Temos uma ambientação legal, que é reforçada pelas referências visuais que temos hoje em dia, inclusive pela própria adaptação da obra para o Cinema. Apesar do filme dirigido por Ridley Scott seguir uma trama semelhante a do livro, as motivações e desfecho são bem diferentes. Mergulhamos neste mundo e, junto com Rick Deckard, vamos descobrindo, nos surpreendendo em meio as reviravoltas da trama. Um livro, talvez, para ser lido mais de uma vez. Mas, por outro lado, uma obra que nos faz também pensar e refletir, pois Philip K. Dick mistura diversos elementos, como: alta tecnologia, psicologia e religião. “O Caçador de Androides” é altamente recomendado, em especial para os fãs de ficção científica e do subgênero cyberpunk.

02 - O Caçador de Androides_____________________________________________________
O Caçador de Andróides (Do Androids Dream of Electric Sheep?)
Autor: Philip K. Dick
Editora: Rocco
Páginas: 256

Nota: 9,5

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Curiosidades:
Philip K. Dick teve várias obras adaptadas para o cinema: “O Vingador do Futuro” (Total Recall), “Minority Report – A Nova Lei” (The Minority Report), “O Homem Duplo” (A Scanner Darkly), entre outros. Vale a muito a pena pesquisar e ler outros livros e contos de sua autoria.

Links:
A dualidade mente e corpo na ficção-científica: de Philip K. Dick ao movimento cyberpunk – Texto de Adriana Amaral, autora de “Visões Perigosas – Uma Arque-Genealogia do Cyberpunk”

Obras do americano Philip K. Dick começam a ser reeditadas no Brasil

Volume de ensaios sobre Blade Runner traz texto de Cabrera Infante

Livros do Autor lançados pela Editora Aleph

Concept Art por Syd Mead

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Uma resposta para “[Resenha] O Caçador de Andróides

  1. Muito interessante, Li algo sobre a reedição das obras de Dick no Brasil e na época fiquei curioso, porém na maré de tantos livros pra ler acabei esquecendo desse, é uma aquisição em vista.

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